O Começo

    Como nos conta Cristina Fonseca em seu surpreendente livro-objeto A Poesia do Acaso (na transversal da cidade), de 1984:

 

  Situada num meio termo entre os grafismos exuberantes do metrô de NY e as pichações-manifesto de Paris/68 (PROIBIDO PROIBIR era uma delas), surgiu em São Paulo, por volta de 1978, uma forma de graffiti que usava frases curtas, irônicas, impregnadas de cultura pop: pequenos poemas urbanos:

         SUZANA ESCURA

          ...um jogo de palavras misterioso que apareceu em toda parte.

   Belos poemas curtos:

   AMANHÃ HÁ SE SER

   A MANHÃ, MÃE

   AMANHECER!           

              Jogos com a sonoridade das palavras:

              O ÍNDIO OCULTA NA OCA O ÓCULOS DO ÓBVIO

  Apesar de ter aparecido de maneira espontânea e anônima, alguns jovens artistas estavam em sintonia:

  Tadeu Jungle e seu ÉDIFÍCIL, cuja escrita formava a silhueta de uma cidade. A esperta e oportuna ORA H.

 

  Walter Silveira, numa fusão de três elementos pop (um músico de rock, um personagem de HQ e uma droga):

                          

                            HENDRIX

                            MANDRAKE

                            MANDRIX

    Hudinilson Jr espalhando o desenho sexy de uma boca vermelha e ao lado:

 

                              AH! BEIJE-ME

 

   E também Fernando Meirelles, Alberto Marcicano...até mesmo Alice Ruiz e Paulo Leminski deixaram suas marcas:

             TÁ APERTADO, MAS NÃO TÁ JUSTO (Alice Ruiz)

              UMOR NO MURO (Alice Ruiz)

                  PALPITE

                    O GRAFITE

                  É O LIMITE      (Paulo Leminski)  

          

  E depois?

  Infelizmente, a cena durou pouco. Alguns artistas partiram para outros experimentos, outros voltaram à sua produção habitual, e mesmo os anônimos parecem ter voltado para casa.

  

  Uma outra forma de graffiti surgiu: mais visual, tendo como técnica o stencil e como figura-chave Alex Vallauri e seus discípulos imediatos (alguns deles envolvidos neste projeto). O graffiti poético ainda tem uma sobrevida nesses artistas (e Hudinilson Jr parece ser o elo entre os dois momentos), mas aos poucos o aspecto puramente visual se impõe, especialmente com o surgimento de uma geração mais nova, ligada ao hip-hop.

  Sprays Poéticos

  Para retomar o fio e espalhar de novo a poesia pela cidade, A Caravana convidou o grupo Os Stencialistas, representado por Ozéas Duarte, Celso Gitahy, Cláudio Donato, Daniel Melim, Bete Nóbrega e Kaleb.

  Uma mistura de importantes artistas da 'geração Vallauri' com revelações surgidas depois, Os Stencialistas interpretaram poemas de Rica P e Paula Valéria Andrade. Os artistas também homenagearam Alice Ruiz e Paulo Leminski, levando seus poemas à rua mais uma vez.

  As fotos

  Beto Riginik é o fotógrafo escolhido para registrar as andanças do grupo. A escolha foi bastante natural, já que é um artista que traz a marca das texturas urbanas muito forte em seu trabalho. Fiel ao espírito de união d'A Caravana, Beto Riginik não se limitou a retratar os graffiti-poemas, mas acabou por trazer sua visão do próprio universo dos grafiteiros.